Ruim da cabeça e doente do pé?

Ruim da cabeça e doente do pé?

Passado três dias do infeliz desfecho do pré carnaval do Garibaldis e Sacis, os pronunciamentos continuam. Ontem, quarta feira (08/02), o comandante geral da Polícia Militar do Paraná, coronel Roberson Luiz Bondaruk afirmou que a última saída do Bloco Garibaldis e Sacis pode não acontecer no Largo da Ordem. Nesta quinta o Bloco convoca uma coletiva de imprensa para pronunciar seu posicionamento para o próximo domingo, além de ressaltar a importância dessa manifestação cultural e o respeito pelos milhares de foliões que dela participam.

Tudo o que aconteceu depois das 21:00 do último domingo no Largo da Ordem não corresponde com aquilo que sempre vi e experimentei durante a folia dos Garibaldis e Sacis. Acompanho o Bloco há pelo menos três anos e os primeiros incidentes de violência que presenciei aconteceram esse ano. A verdade é que o público aumentou, o Garibaldis e Sacis começou a ser divulgado pelos principais veículos de Curitiba e até em rede nacional. A demanda é nova e requer atenção. Curitiba precisa abraçar uma das suas manifestações culturais de maior valor, visto que essa nasceu do povo para o povo.   

Infelizmente os órgãos oficiais não parecem preparados para esse abraço. Em dezembro do ano passado, o bloco entrou em contato com a Fundação Cultural de Curitiba e com a Secretaria de Estado da Cultura do Paraná, para que esses intermediassem os tramites legais para providência de segurança, pronto atendimento, banheiros químicos, limpeza, enfim, tudo o que é necessário para uma festa que acontece na rua. O apoio foi firmado e a parceria foi anunciada pelo microfone nos dias de festa.

Na segunda saída do bloco esse ano, que imagino ter sido a de público recorde, uma briga e a percepção das novas proporções fizeram com que os Garibaldis e Sacis novamente procurassem os mesmos órgãos para reforçar o pedido, levando em consideração o cancelamento da festa. Condições aceitas, o bloco foi pra rua. Depois da confusão envolvendo o público que foi para participar do pré carnaval, o apoio não parece o mesmo. Visitei a Fundação Cultural de Curitiba, a Secretaria de Estado da Cultura e a Prefeitura para pedir esclarecimentos sobre o apoio. As duas primeiras instituições declararam que apenas ajudaram nos tramites, mas que a produção do evento é de responsabilidade do Bloco - o que de fato é verdade.

A prefeitura se pronunciou com apenas uma frase: “a Guarda Municipal estava prestando apoio à PM”. De oficial mesmo, somente as declarações dos órgãos responsáveis pela segurança da população. Questionado sobre o pouco efetivo destacado para garantir o bem estar dos mais de sete mil foliões presentes no Largo durante o primeiro domingo de fevereiro, o coronel Ademar disse o seguinte:

“Não tínhamos a percepção de que o pessoal ia querer se matar no Largo da Ordem... E a Polícia não chega lá para dizer: Agora vou bater em todo mundo que está nessa festa no Largo da Ordem... – longe de nós pensarmos dessa forma. Ela chega lá para tirar o seu serviço, de maneira ordeira, de bem com a população e ir embora. (...) Infelizmente aconteceram lesões, até agora, de natureza leve, infelizmente. Porém coloco o seguinte questionamento: se não fosse a utilização pela Polícia Militar desses meios técnicos para que se evitasse aquela correria, não poderia ter ocorrido coisa pior?”

A declaração acima foi gravada durante a coletiva de imprensa realizada na última segunda-feira, doze horas após ação realizada pela Polícia Militar no Largo da Ordem. A coletiva aconteceu no pátio do Quartel da PM, onde estavam expostas algumas viaturas avariadas durante o conflito, e onde o coronel Ademar Cunha Sobrinho, comandante do 1º Comando Regional da PM, também declarou que uma sindicância será aberta para investigar os fatos, mas enfatizou que “é inconcebível uma viatura da polícia ser recebida a garrafada, a pedra, a pau, a cântico (de apologia à maconha)”.

O efetivo no momento em que o Bloco se apresentava era de 20 homens, que convenhamos, no meio de sete mil pessoas podem ser considerados como agulhas no palheiro. Uma das falhas apontadas pela opinião pública é justamente essa, a de não se fazer perceber a presença da polícia. Outra falha foi apontada por Márcio Mattana, diretor de teatro e professor da Faculdade de Artes do Paraná - FAP, que estava do lado de fora do quartel da PM depois da coletiva: “Afinal, Quem foi preso em toda essa história?”. A sala de imprensa da PM respondeu em release que “ninguém foi preso”. 

Mattana estava junto de alguns membros do Bloco Garibaldis e Sacis, que protestavam contra a violência da polícia, ostentando cartazes e prestando declarações à imprensa. Mattana relata sua experiência:

“Eu estava na frente do Brasileirinho e tudo estava tranqüilo. Integrantes do bloco se retiravam com instrumentos, famílias estavam sentadas nas mesas e eu esperava um amigo. De repente vem um monte de gente correndo, desesperadas, em direção a Mateus Leme – essas foram alvos de tiros de borracha. Eu me protegi na frente do carro de som e tive uma espingarda apontada para mim, mesmo com as mãos para o alto.”

A intenção do grupo na manhã da última segunda era participar da coletiva de imprensa, o que não foi permitido visto que a entrada era exclusiva para jornalistas. Porém o subcomandante-geral coronel Cesar Alberto de Souza e o já citado coronel Ademar receberiam todos que ali se encontravam minutos depois, em um auditório dentro do quartel. Enquanto isso, continuavam os relatos dos membros do Bloco sobre situações inaceitáveis que aconteceram durante a ação da PM, como tiro de borracha em criança de 4 anos, em mulher grávida, à queima roupa, pelas costas, truculência...

Marcel Cruz, vocalista do Garibaldis e Sacis, ofereceu um depoimento emocionado, questionando também a ação da PM:

“Poxa vida, não sei... Foi um dos Pré-carnavais mais lindos que a gente já fez. Foi pacífico do começo ao fim, a confusão começou depois de uma hora que o bloco acabou. Mas é o nosso público, o pessoal que foi ver a gente, caralho! Sabe, porra! Sabe... é um pedaço da gente! Seja quais os motivos que a polícia teve, foi uma truculência absurda, não vejo razão, uma violência muito gratuita. Porque se o foco era lá em cima (Praça Garibaldi), eles deviam ter cercado e ficado lá em cima... Mas eles desceram varrendo geral... Não estamos entendo nada até agora, estamos sem chão, sem saber... E aí?”

Segundo o coronel Ademar e segundo Reinaldo de Almeida Cesar, secretário de Segurança Pública do Estado, a ação foi bem executada, dentro dos procedimentos técnicos padrões da PM. São quatro passos: primeiro a abordagem, segundo o reforço, terceiro a munição não letal e o quarto as bombas de efeito moral.

Correria, terror e descontrole. Foi isso que a ação da PM gerou em quem não entendeu nada do que estava acontecendo. A cobrança é pela estratégia, visto que quase três mil pessoas se localizavam na Rua Mateus Leme, que poderia ter sido isolada para preservar esses que nada tinham a ver com a situação criada na Praça Garibaldi. Mas estratégia não pode ser cobrada quando não há ninguém no comando. O trecho abaixo é a primeira parte do diálogo entre subcomandante-geral coronel Cesar Alberto de Souza e Luiz Nobre, um dos organizadores do Garibaldis e Sacis,  durante a pequena reunião que aconteceu no auditório do quartel da PM: 
 
Coronel Cesar : Ficamos sabendo de situações nada agradáveis no Largo da Ordem. Imediatamente entramos em contato, pedimos para o pessoal das viaturas retornarem, para pedir que o Batalhão de Operações Especiais fosse ao local. Essa autorização deveria partir da minha pessoa, mas eu não tinha autorizado. Estamos levantando tudo o que ocorreu e gostaria de ouvir de vocês o que aconteceu, as principais reclamações para tomarmos as devidas providências.

Luiz: Na minha opinião não podemos culpar o policial que deu o tiro, porque ele obedece o comando de alguém, se não foi do senhor eu não sei de quem partiu.

Coronel: Me ajude, quem estava no camando?

Luiz: Eu perguntei, mas eles não responderam... A resposta era que eu deveria sair dali ou me cobririam de cacete.

A mesma resposta obtive de um outro policial da Rotam, mesmo me identificando como jornalista. Difícil, e inaceitável, é acreditar que não tinha ninguém comandando a ação. Mais plausível é que este responsável esteja sendo protegido. E se for o caso, a covardia deste e da corporação pode ser comparada a dos civis que agrediram os policias e se esconderam no meio da multidão, justificativa do coronel Ademar para a ausência de detenções na ação. Ainda segundo o Subcomandante-geral a falta de comando será averiguada, admitindo que a situação deveria ter sido controlada por uma equipe específica, “preparada para aquele tipo de ocorrência”. 

 

 

Após a dispersão de todos os presentes no Largo da Ordem o cenário era desolador, com muitos chinelos e sandálias pelo caminho, cacos de vidro e projéteis de borracha espalhados entre os paralelepípedos. Na mesma noite outras ocorrências policiais aconteceram na Rua Paula Gomes. Segundo Arlindo Ventura, proprietário do O Torto Bar e presidente do Conselho de Segurança do São Francisco, “um grupo organizado se dirigiu ao Torto para bater numa pessoa. Tivemos que interferir para que não houvesse um assassinato em frente ao meu comércio. No final saímos agredidos também. Além do Torto o mesmo grupo quebrou o Old’s Bar, pontos de ônibus, lixeiras... Me pareceu coisa mandada, um movimento isolado que veio para denegrir a imagem do local, do movimento que acontece aqui.”

Arlindo não desconsidera as pretensões políticas do episódio, levando em consideração tudo o que aconteceu na fatídica noite de domingo:

“Pessoalmente acho que temos que considerar as questões políticas, estamos a poucos meses da eleição... Pode ter havido uma agitação por parte de uma oposição – não interessa se é pró Ducci, pró Richa, pró Fruet... -, isso pode ter acontecido. Temos que identificar os vândalos que agrediram os policiais. Temos que cobrar uma postura das autoridades, assim como um melhor preparo e melhor remuneração destes policiais.”

Nesta terça feira a CBN noticiou a apreensão do governador Beto Richa sobre uma possível paralisação da polícia paranaense, notícia que não pode ser desconsiderada na avaliação dos fatos. A hipótese de que tudo tenha sido uma armação política é grave, e apesar de não comprovada, já apavora só por existir, visto que se tratava da vida e bem estar de milhares de cidadãos. 

Ainda na segunda o Largo da Ordem foi palco de uma manifestação pela paz, onde centenas de pessoas ouviram os recados do Bloco, as recomendações para os feridos, e a notícia de que o último pré-carnaval do ano acontecerá. Ao final, a marchinha “Bandeira Branca” foi cantada ao redor do bebedouro e pelas ruas do São Francisco.

Porém, a última notícia da PM é que se cogita que o pré-carnaval do Garibaldis e Sacis não ocorra no Largo da Ordem. Na coletiva de segunda o Coronel Ademar já tinha anunciado uma possível mudança para a Av. Marechal Deodoro. A decisão é arbitrária, visto que não é o local o problema, pelo contrário, é o local que dá nome e identidade ao Bloco, que por sua vez o exalta em suas marchinhas. Tirar o Garibaldis e Sacis do Largo é tirar o Largo da população, é mais uma vez violentar os cidadãos, só que agora com um tiro no pé da cidade, que vinha sarando de uma doença de anos.

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Curitiba , PR

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