Café antes do fim

Café antes do fim

A temporada da peça “Antes do Fim” continua até o dia 19 de dezembro, de quinta a domingo, sempre às 20h no Teatro Novelas Curitibanas. A dramaturgia é de Marcelo Bourscheid, e foi produzida no ano passado dentro do Núcleo de Dramaturgia Sesi –PR, coordenado pelo próprio diretor da peça e nosso entrevistado, Marcos Damaceno. Não era o fim, mas chovia bastante, e o trânsito fez com que o repórter chegasse meio molhado e meia hora atrasado ao teatro da Companhia Marcos Damaceno. Lá também aconteciam as atividades do Núcleo - feliz coincidência que gerou um inesperado e relâmpago e importante papo com Roberto Alvim:

CuritibaCultura: Gostaria de um esclarecimento... Em Antes do Fim existe o diálogo com Electra?

Damaceno: É mais a partir da Ifigênia que da Electra. Embora todas essas estórias se permeiem... A trajetória dos personagens se funde. Temos aqui Ifigênia, Orestes e Elektra – que eram irmãos. Mas nesse texto o Marcelo Bourscheid se ateve mais ao mito da Ifigênia: do rompimento familiar, do isolamento. Muitos textos do Bourscheid, esse dramaturgo novo que está sendo formado pelo Núcleo de Dramaturgia, tem como base a mitologia grega. É um autor que tem uma formação foda, um estudioso da mitologia grega. Ao mesmo tempo que é um cara que parte daí para falar da sensibilidade do homem contemporâneo, o entendimento, o sentimento, as relações entre pessoas, entre membros de uma família na contemporaneidade.

CuritibaCultura: Vc acompanhou esse texto do início ao fim?

Damaceno: Sim. Desde as primeiras linhas.

CC: Gostaria de saber mais sobre esse diálogo entre mitologia e contemporâneo... Relação também abordada em texto de impressões sobre a leitura realizada semana passada no Núcleo de Dramaturgia Sesi -SP.

Damaceno: O Marcelo Bourscheid sabiamente dialoga com a tradição mais clássica do nosso teatro – que remete aos primórdios da dramaturgia, aos gregos, que é o berço da dramaturgia ocidental – mas também com as estratégias mais interessantes dos mais renomados dramaturgos da contemporaneidade. São claros ecos de Lagarce em sua poética. Sentimos ecos de Jon Fosse, que é um autor norueguês, na composição dos personagens. Entre outros com os quais há uma afinidade, pela poética, pela linguagem. E isso é natural, porque dentro do Núcleo, nesse período de dois anos, todos os participantes são bombardeados para entrar em contato com os nomes mais importantes, interessantes e reveladores da atualidade. Isso porque tem que dialogar com os autores da atualidade, que se expressam, se comunicam de uma forma mais próxima de nós – porque são pessoas que estão aí...

CC: O sentimento da época.

Damaceno: O sentimento, o linguajar, o modo de pensar... estão muito próximos da gente. Pessoas que estão observando a sociedade na França, na Noruega, na Inglaterra... Assim como nós que estamos desenvolvendo nosso trabalho aqui.

CC: Até porque um dos grandes desafios do artista é fazer essa tradução do seu tempo, da onde ele viveu...

Damaceno: Que é o que nos apresenta novas visões sobre o ser humano, o que é representativo de sua época, que vai ampliar a consciência que nós temos sobre essas relações entre pessoas. O teatro tem essa particularidade: É a arte que nos confronta com as relações entre as pessoas. E de nós com a gente mesmo, ampliando a consciência que temos – sobre nós, o que é a pooorra do ser humano. E se for para o teatro ter um objetivo talvez seja esse... Se for pra ter. Porque na verdade o teatro não tem objetivo, como diz o pantaneiro Manoel de Barros: “A arte não tem função”. A arte é um inutensílio. Mas se fosse conjecturar um objetivo, talvez seja esse de ampliar nossa consciência, ampliar nosso espírito...

CC: Nossa percepção.

Damaceno: Nossa percepção. Nossa percepção sobre nós mesmo. Sobre as relações entre nós, para tentar entender o que é o ser humano. E há fatores que são tão contraditórios, complexos, que é só no âmbito da arte que a gente vai conseguir talvez enxergar, entender. Talvez eu só tenha buscado fazer teatro numa tentativa de entender o que é o ser humano, o que sou eu mesmo. É um pouco da esfinge: Me decifra ou devoro-te. Então essa busca de tentar entender talvez seja o que me mantêm vivo... se não já seria um cara morto. Mesmo que morto em vida. Espero chegar aos oitenta – quer dizer, agora minha perspectiva de vida já está diminuindo, acho que só vou viver até os sessenta (rs) – , mas quero chegar lá e ter entendido um... um... um tico do que é o ser humano. É uma incógnita, um eterno enigma que a gente não pode deixar de buscar.

CC: Como o teu entendimento do texto “Antes do Fim” - naquilo em que ele toca o teu íntimo - instigou a montagem que vc agora apresenta?

Damaceno: As minhas escolhas de encenação?

CC: Exatamente. Como ele te sensibiliza? O que vc sente para botar uma praia no teatro? Essas coisas... Como tua sensibilidade trabalha nesse processo de escolhas.

Damaceno: A partir do momento da escolha do que vai ser montado – geralmente as escolhas recaem sobre mim e a Rosana (Stavis), que somos os donos da companhia – escolhemos a equipe de criação, que geralmente é a mesma. As escolhas de recursos cênicos, estética, linguagem, são definidas no processo, com colaboração de todos. Claro que já existe a linguagem da Companhia, que se caracteriza em espetáculos que primam mais pela contenção, pela melancolia, pela precisão, limpeza, frieza. Os espetáculos são mais intimistas, minimalistas... Essas são características que no decorrer dos anos identificamos na Companhia – não foi uma coisa imposta. Quanto às escolhas temos como exemplo a porta, que também era pra ser enterrada. Mas o Beto Bruel (iluminador)disse: A porta não pode ser enterrada, ela deve ficar suspensa, porque ela é a salvação. O que salvou a Ifigênia foi ter saído por aquela porta – a porta de saída. Enquanto todo o resto da casa foi soterrado, tudo foi afundado.

CC: Essa é a metáfora do sonho (de felicidade) deles: a casa na praia.

Damaceno: O mar... Não foi nem o mar que os engoliu: eles se afundaram. Eles estão soterrados. Ela se libertou (Ifigênia) como a mim – que é um ponto onde me identifico – que tive que buscar meus caminhos desde cedo, que eram caminhos totalmente opostos ao da minha família. Caminhos em que se eu continuasse, não tivesse rompido e ido embora – renegado até – talvez eu já estivesse morto, não tivesse essa força de buscar esse entendimento, essa ampliação.

(A porta abre e entram Roberto Alvim e Marcelo Bourscheid)

Damaceno: Ooo Marcelo! Entra! Marcelo Boursheid tá aí ó!

CC: Opa! Aproveitamos, já que o assunto é vc também!

Marcelo Boursheid: Tudo bem?

CC: Tudo.

Damaceno: Quer café?

Marcelo: Eu quero.

Damaceno: Vê se ainda tem...

Marcelo: Tem.

Damaceno: E aí Marcelo?

Marcelo: Tudo tranquilo?

Damaceno: Tudo. Tava comentando aqui da repercussão do Núcleo... que não deixa nada a desejar para com o Núcleo de São Paulo, de forma alguma...

Alvim: Mais né.

Damaceno: As conquistas nesses dois anos...

Alvim: É bom não comparar assim...

CC: É que a comparação surgiu do seguinte: O Damaceno falou aqui que antes do Núcleo o conhecimento de teatro contemporâneo aqui em Curitiba não era legal...

Damaceno: Principalmente no enfoque da dramaturgia.

CC: E essa que era a pergunta, em que estado se encontra o Núcleo de Curitiba agora... Não para simplesmente comparar, mas para dizer: sim, estamos nivelados nessa questão com os Núcleos (de dramaturgia) do eixo Rio-SP.

Alvim: O ponto que eu tenho falado em algumas palestras que tenho dado nos últimos tempos – na USP, no Teatro da Oi no Rio de Janeiro, no Festival de Teatro de Recife, que eu estive semana passada – fala sobre uma previsão que não é nenhum pouco pautada no entusiasmo, ou numa crença sem base... O fato de que pra mim, a médio prazo – dois, três anos – Curitiba vai se colocar como o lugar mais de ponta, de arte mais avançada em termos de construção dramatúrgica no Brasil. Não tenho a menor dúvida disso. O que esses autores estão fazendo nesse Núcleo de Dramaturgia aqui, tem sido de uma potência... Uma dramaturgia tão de ponta, tão avançado quanto o que se faz nos maiores teatros, nos teatros mais sofisticados da Europa. Formou-se aqui em Curitiba, nesses dois anos, essa importância de criar um lugar onde esses autores possam se encontrar, pensar, ver e discutir a dramaturgia contemporânea. Esse lugar não existia. Esse lugar é uma conquista do Núcleo, do Sesi, do Marcos Damaceno - de quem partiu essa iniciativa, junto da Anna Zetola do Sesi. A criação desse lugar, que é uma coisa que deve se perpetuar, não pode ser uma coisa episódica – todas as maiores cidades do mundo tem lugares como esse: Nova York, Berlin, Paris. E agora formou-se uma espécie de egrégora, uma sinergia ali, onde já temos uma segunda turma... Estamos falando de um corpo de mais de vinte dramaturgos – os melhores, os que considero os melhores ali dentro. Dentro desse Núcleo, nessa discussão de dramaturgia, dentro da singularidade de cada um e dentro de uma espécie de competição também – competição no melhor sentido – entre eles... Porque o Marcelo Bourscheid apresenta uma obra de extrema excelência... Isso obriga o Alexandre França, dramaturgo agora indicado ao Gralha Azul, a responder com uma obra do mesmo nível, a tentar superar.

CC: Um puxa o outro.

Alvim: Exatamente. Isso força uma energia, um atrito positivo, sem ser uma competição nefasta, uma competição egóica ou estúpida, mas uma competição realmente no campo da arte – no campo da criação artística, não no campo dos egos - que tá formando uma energia, um nível que eu não vejo em São Paulo. Eu dou aula em cinco instituições de dramaturgia em São Paulo. Não há comparação entre o que está se fazendo aqui e com o que meus alunos estão fazendo em São Paulo. Não é uma comparação para puxar a sardinha pro nosso lado... Porque eu poderia puxar pra São Paulo, afinal eu moro lá. Mas eu tenho que atestar o fato de que isso é uma verdade incontestável. Claro que isso ainda não se propagou em nível nacional porque Curitiba, como vc falou, é uma cidade periférica. Mas em dois a três anos, com as estréias sucessivas desses espetáculos aqui, somadas as turnês que essas peças devem fazer, isso vai se tornar uma unanimidade nacional. Quer dizer: Curitiba para mim está na dramaturgia contemporânea hoje como Seattle estava para o rock and roll nos anos 1990. Sacou? Formou-se uma cena muito forte aqui.

CC: E vc poderia apontar alguns desses textos que atestem tudo isso?

Alvim: Os textos todos que estão publicados na primeira coleção do Núcleo de Dramaturgia do Sesi – o que também foi uma conquista do Damaceno e da Anna Zetola. Em 2011 estaremos lançando mais uma coleção, com as peças da produção desse ano. Inclusive digo uma coisa: O nível do primeiro ano de atividade, dessa coleção aí, foi um nível absolutamente surpreendente. Mas tenho certeza que o nível do segundo ano, que será lançado em 2011, é superior. São obras muito mais bem acabadas, com uma radicalidade muito grande dentro de linhas muito distintas... São obras mais maduras que as do primeiro ano. Claro que há grandes textos nesse primeiro ano, como “Como Se Eu Fosse o Mundo”, do Paulo Zwolinski; “Antes do Fim”, de Marcelo Boursceid; destacaria também “Fatia de Guerra”, do Andrew Knoll, por exemplo, que é um texto muito radical, muito original. Há textos aí que são incríveis. E, além disso, tem a produção que vai ser publicada ano que vem - que eu estou completamente apaixonado. Tenho falado com o Damaceno sobre a dificuldade de selecionar as peças que terão leitura dramatizada ou encenação... Há pelo menos dez textos excepcionais produzidos esse ano. Dito isso me despeço dos senhores...

Damaceno: Quer colocar alguma coisa Marcelo?

Marcelo: Ihhh... Agora vou tomar uma (juntada?) lá... rs.

Damaceno: He He He... Vai lá.

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Alberto Massuda Nascido no Cairo, Egito, em 1925, Alberto Massuda veio com 33 anos para o Brasil e fixou residência em Curitiba. Em 1958 naturalizou-se brasileiro. Antes de sua chegada, cursou Belas Artes no Egito e...
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