Cada corpo tem o seu tempo – cada tempo tem o seu corpo

Cada corpo tem o seu tempo – cada tempo tem o seu corpo

O Sesc Paço da Liberdade apresenta, até o dia 03 de maio de 2015, a exposição Cada corpo tem o seu tempo — cada tempo tem o seu corpo, com obras de seis artistas atuantes no meio de arte de Curitiba: Eliane Prolik e Carina Weidle, que desenvolvem suas pesquisas desde o início e fins da década de 1980, respectivamente, Cleverson Oliveira e Fábio Noronha, atuantes desde os anos 1990 e Lilian Gassen e Rodrigo Dulcio, a partir do ano 2000.

A hipótese aqui levantada é a de que no meio de arte de Curitiba, desde a década de 1970, com o advento da chamada “linguagem ambiental”, atingindo seu ponto culminante em fins da década de 1980, com a difusão das linguagens performáticas, tenha se estabelecido uma produção fundada na experiência corporal, no uso simbólico de materiais, numa espécie de “verdade” contida na literalidade de cada elemento, não verificável apenas nos happenings e performances, mas também na escultura e na pintura produzida pela chamada “geração 80” de Curitiba – uma geração, é preciso lembrar, em que alguns de seus representantes se lançaram no espaço público de discussão em eventos ou ações coletivas como os bem conhecidos Convergência (1980-81), Bicicleta (1982), Moto Contínuo (1983), Sensibilizar (1983-84) e PH4 (1987). A imagem, para essa geração, se materializa num corpo, no mais das vezes, simbólico, cuja relação com o espectador exige certo embate, se relaciona por escala, põe, enfim, o corpo do espectador em ação. Ela própria, a obra, se constitui disso: o espectador precisa entrar na obra, atravessá-la literalmente, se defrontar com o material bruto e o simbolismo que carrega, vesti-la, encená-la, como é possível notar no conjunto da obra de uma artista como Eliane Prolik.

Por outra feita, para uma parcela significativa da produção dos artistas surgidos entre as décadas de 1980 e 1990, como Carina Weidle, Cleverson Oliveira e Fábio Noronha, não é a “verdade” que está em jogo. Ali, a matéria falseia, as linguagens querem ser outra que não elas próprias: o vídeo se comporta como pintura, a escultura se transveste de imagem ou pode, ainda, imersa em zombaria, se parecer com a massa elástica da goma de mascar. Para essa “geração 90” – forjada também no clima de “expansão das linguagens” –, o que anima a matéria em sua origem é já imagem: a televisão, a publicidade, os quadrinhos, as primeiras gerações de videogames, a imagem da própria arte e toda sorte de ironia e sarcasmo que daí advém. Nestas produções, caracteristicamente, a materialidade não devolve a experiência do corpo, mas imagem de corpo, de modo que a relação com o trabalho seja de outra ordem: não mais o fenômeno de deslocamento corporal no espaço, da percepção do corpo na e pela obra, mas um percurso positivo da imagem a imagem.  Nesta chave, como operaria a mais recente produção?

Ninguém quer dever nada a um seu contemporâneo, nos advertia o protagonista de Borges num de seus contos. Assim, se pudermos traçar, mesmo que seja esquematicamente, certa “linhagem” entre produções, uma parcela significativa dos artistas surgidos na cena pública nos anos 2000, como Lilian Gassen e Rodrigo Dulcio, parece se relacionar mais diretamente com produção dos artistas da chamada “geração 80”, quaisquer sejam as razões. A despeito das aproximações, entretanto, permanece entre eles uma distância fundamental: ainda que o ponto de partida dessa parcela da produção seja também a imagem, trata-se de uma imagem mais afeita à visualidade dos programas de editoração gráfica, à cor de alguma palheta comercialmente disponível, à virtualidade que constitui o real. Nem mesmo as misturas físicas de pigmentos a afasta desse território: os padrões de Pantone já nos asseguraram a existência de toda e qualquer cor e de suas inumeráveis variações em gradação. O humor e a ironia da “geração 90” dão lugar a certa circunspecção nessa mais recente lavra de artistas. A imagem que se encontra na origem do processo produz uma materialidade mais declarada: a pintura se torna um objeto, a fatura é aparente – mesmo que isso signifique o aspecto industrial da superfície brilhante da tinta automotiva –, o gesto que a produz é marcado. Por outro lado, e é isso que a distingue sobremaneira, não é o corpo que parecem requerer, mas a intelecção de seu estar no espaço, não há caráter simbólico e o gesto, enfim, não quer ser mais do que linguagem.

A problemática aqui esboçada – sem a pretensão de tê-la, de algum modo, resolvido ou analisado exaustivamente – evidencia o possível movimento de deslocamento da experiência corporal nas artes plásticas em nosso meio cultural em direção a um tipo de experiência mais puramente intelectiva, ainda que, obviamente, saibamos que não haja intelecto sem corpo. Mas é fato também que essas experiências de ordens diversas coabitam um espaço, que suas temporalidades distintas partilham de um tempo que as atravessa. A importância fulcral disso tudo é, mormente, como pensar o mais nebuloso dos tempos, aquele em que vivemos: o tempo presente.

Cristiane Silveira

Serviço

Exposição: Cada corpo tem o seu tempo — cada tempo tem o seu corpo
Curadoria: Cristiane Silveira
Período de exposição: 19 de dezembro de 2014 a 03 de maio de 2015
Local: Espaço das Artes – Sesc Paço da Liberdade
Praça Generoso Marques, 189
Visitação: Terça a sexta-feira, das 10h às 21h | Sábados, das 10h às 18h | Domingos e feriados, das 11h às 17h
Mediação: Atendimento a grupos mediante agendamento. Contato: willian.machado [at] sescpr.com.br
Informações: 3234.4200
Gratuito

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