Cabaré para a saúde da alma

Cabaré para a saúde da alma

Não faz muito tempo que Carlos Careqa se apresentou em Curitiba. Há dois meses ele foi o convidado do grupo Regra 4 para a gravação do DVD “Filhos do Rio Belém”. Mas a apresentação foi rápida, afinal, o show era do Regra 4.

De volta a Curitiba, cidade em que morou por muitos anos, Carlos Careqa promove o lançamento do seu mais recente disco, chamado “Alma Boa de Lugar Nenhum”. O disco é inteiramente composto por piano e voz, e entre tantos convidados tem a participação de Chico Buarque e de Paulo Moura, pianista que estará na cidade para participar do show.

Recém chegado de viagem, Careqa recebeu o CuritibaCultura para uma entrevista, que aborda tanto o novo disco como sua relação com a cidade. Nesta sexta acontece o segundo e último show do lançamento, confira as informações no serviço que segue após a entrevista.

CuritibaCultura: Compareci no bate-papo promovido no Conservatório de Música Popular de Curitiba na oportunidade em que participou de um show do grupo Regra 4. Peguei o meio da conversa e por isso gostaria de saber um pouco mais sobre seu trabalho aqui na cidade.

Carlos Careqa: Quando eu voltei de Nova York eu comecei a tocar num bar aqui, lá no Largo da Ordem mesmo. Comecei a fazer trilhas pra teatro, para muitas peças. Eu tenho um pé no teatro, sou um pouco ator - fiz seis meses de curso no Teatro Guaíra – e as pessoas que me conheciam me chamavam. Eu fazia por bilheteria, por encomenda, não tinha esse pensamento: “Custa R$20 mil para fazer”. Fazia com o que tinha. Todo o pessoal daquela geração – eu, Beto Collaço, Álvaro Collaço, Nara Fontoura – fazia por amor à camisa, à arte. Cada um tinha seu trabalho particular, eu trabalhava em banco na época. Deixei do banco e fui para Nova York, voltei e fiquei só na música. Em 1986 eu comecei a fazer publicidade como ator, era o que me segurava financeiramente. Depois fui para São Paulo e melhorou ainda mais, o que foi uma sorte no sentido de que eu fazia na música o que queria. Curitiba para mim foi um grande laboratório. Uma das vantagens é que se encontrava – me disseram que isso mudou – muito as pessoas na rua.

CC: Mas o que essa mudança para São Paulo ocasionou em termos artísticos? Tem a ver com essa questão da autocrítica curitibana?

Careqa: Na época em que fui embora era muito pior, mas tinham as vantagens e desvantagens. Fui para São Paulo porque aqui não tinha mais espaço, estava viciado: faz um show no Paiol, no TUC, no Miniauditório do Guaíra... E eu sempre encontrava problemas, a cidade é um pouco assim... Você falou do curitibano e ele realmente é muito autocrítico e muito crítico dos outros também. É uma cidade que gosta de se apunhalar mesmo.

CC: Apesar de hoje ser uma cidade sem crítica.

Careqa: Não tem. Não tem no Brasil inteiro, o que é um absurdo. São Paulo também.

O que eu precisava era encontrar novos espaços, novas pessoas, e claro, a questão do “sucesso”, que a gente busca, é fundamental para que seu trabalho deslanche. Aconteceu que fui abrir um show do Arrigo Barnabé lá no Centro Cultural Portão e ele gostou de uma música que cantei: “Eu gosto de Cu... ritiba”. E ele ter gostado foi o máximo, porque eu era muito fã do Arrigo. Ele foi super gente fina e me convidou para ir para São Paulo, lá ele me ajudaria a produzir meu disco. Não deu outra. Eu tinha acabado de voltar da Alemanha e não queria ficar em Curitiba, queria morar no Rio ou em São Paulo.
Hoje mudou. Sinceramente mudou mesmo – não é hipocrisia da minha parte dizer isso. Você não pode sair daqui e ir para São Paulo batalhar, todo mundo já fez isso. Com a internet se pode fazer o trabalho e despachar para o mundo inteiro.

CC: As lógicas mudaram...

Careqa: Mudaram. A minha época foi a última chance, não teria outra. Chegando lá eu conheci um mundo. O Chico César e o Lenine começando, tocávamos juntos. Conheci um monte de gente que me mostrou que eu não era tão genial quanto eu achava que era. Curitiba tem isso, você fica nessa redoma e pensa que é o melhor de todo mundo. Quando chega em São Paulo você concorre com o mundo, tem 300 iguais a você. Tive que batalhar mesmo para mostrar o meu trabalho, inclusive conseguindo formatar melhor meu trabalho com música, focar melhor, seguir um caminho melhor. Somos produtos do meio. Eu não sou gênio e não sou instrumentista, então preciso ser estimulado. E São Paulo foi um lugar que me estimulou muito. Sou uma das pessoas que gosta de São Paulo, não tenho nada a reclamar.

CC: Não pude ouvir o novo trabalho, mas gostaria que você falasse um pouco sobre ele.

Careqa: Esse é meu sétimo álbum. Um disco que quis fazer somente com voz e piano.

CC: No release diz que você é um apreciador do piano.

Careqa: Você pode perguntar para qualquer músico, todos vão dizer que ele é a mãe dos instrumentos. Ele tem tudo ali nas 88 teclas: timbres, sons. Se você quer um contrabaixo, um violino, tudo está na tessitura das teclas. Inclusive os maestros e arranjadores usam o piano para isso. A princípio queria fazer só com um pianista, mas não deu certo. Surgiu a oportunidade de fazer com 7 pianistas, então fui chamando os amigos para tocar e fazer os arranjos. Eu ia lá e ensaiava com um deles, dava a linha dos arranjos. Depois fazia com outro, sem eles saberem disso. Depois eu costurava os arranjos com as ideias, da primeira música até a última tem coisas que se relacionam. É um disco que também tem uma homenagem ao teatro, porque o Bertold Brecht é um cara que sempre gostei muito, gravei duas músicas dele aqui, em português. Uma delas é de um cara aqui de Curitiba, o Marcelo Marchioro – diretor de teatro – com a Celina Alveti – professora da PUC e tradutora – e se chama “Balada da dependência sexual”. A outra versão é minha, uma homenagem de Brecht ao rádio, “Meu pequeno rádio”. E é isso, um disco com o objetivo de ser mais camerístico, com um clima de cabaré, de recital.

CC: Isso sonoramente. Porque têm outras referências também o “Alma boa de lugar nenhum”.

Careqa: Tem uma peça do Brecht que se chama “Alma boa de Setsuan”, que ele fez falando do capitalismo, socialismo. Mas tem esse sentido também de uma pessoa - que não sou eu, é um personagem – que demorou para sacar que fazer o bem para alguém pode ser interessante. Você vê isso no teu dia-a-dia, na rua, pessoas que você pode ajudar. Fiquei pensando. Quando fiz essa música, fiz tirando um sarro: “Eu sou a boa alma de lugar nenhum/ todo dia eu mato um / todo dia eu mato um”. Porque nos achamos muito bondosos, mas na verdade não estamos fazendo nada e todo mundo está com a consciência tranquila: eu pago meu impostos. Cada vez mais o mundo vai precisar dessa coisa, da ajuda do próximo. É um pouco por aí também, mas não é catequético. É uma coisa divertida, entretenimento.

Serviço

Alma boa de lugar nenhum - Lançamento do CD homônimo de Carlos Careqa e Paulo Braga
Local: Teatro Paiol
Data: 2 de dezembro
Horário: 21h
Ingressos: R$ 30,00 e R$ 15,00
Endereço:Praça Guido Viaro, s/n
Informações: (41) 3213-1340

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