A palavra no palco

A palavra no palco

Nem todo o texto que é feito para ser lido mantém sua qualidade quando falado. Mas para o teatro, o texto possui esses dois tipos de acesso que permitem interpretações bem diferentes. Para levantar do papel e viver na fala dos atores, é necessário que se tenha bastante cuidado estético e se leve em conta o casamento da palavra com os outros recursos cênicos.

Uma das pessoas que sabe sobre isso é o dramaturgo Eduardo Wotzik, diretor da peça Estilhaços, que esteve na mostra oficial do Festival de Teatro de Curitiba em 2011. O texto desse espetáculo consistia em 45 crônicas de sua autoria, interpretadas por 4 atores. Escritos apenas como literatura, ele conta que, na leitura em voz alta desses textos por alguns atores, percebeu que algumas crônicas poderiam ser levados para o palco. Seu critério para decidir o que serviria no teatro se baseou em “uma sensação, mas uma sensação bem concreta. Tem textos que continuam no ar quando você fala, ficam pairando. Já outros se desfazem no ar, perdem sua força quando são falados”.

Essas crônicas de Wotzik, além de irem ao palco, foram também publicadas em livro no mesmo período da peça. O diretor conta que é bastante diferente ter acesso ao texto no livro ou no teatro, principalmente porque, com os recursos cênicos e a interpretação oral, há um direcionamento maior de como o texto deve ser compreendido pelo espectador. “ Quando se lê existe 3 pessoas no processo, o escritor, o autor (narrador) e eu (leitor). No teatro são 4 ou até 5 pessoas, porque há também o ator e o diretor envolvidos no texto.”

Embora seja fundamental o cuidado estético com o texto, nem toda boa dramaturgia pode virar bom teatro. É o que afirma Luiz Felipe Leprevost, escritor e diretor teatral. Outro autor que também escreve nesses dois gêneros é Alexandre França, quem lembra que o texto teatral deve ser elaborado “ conjugado com os outros elementos cênicos”.

Os dois também apontam que uma diferença fundamental entre os dois gêneros é a temporalidade e o espaço em que cada um dos textos acontecem. O texto teatral, mesmo que remeta ao passado, ocorre sempre no presente, além de vir à tona em determinado espaço distinto da realidade cotidiana. Isso transporta o expectador em uma atmosfera pré determinada, o que não acontece na literatura devido ao leitor projetar as imagens na própria mente. Dessa forma, nas palavras de Alexandre França, o teatro cria “ um novo arquétipo linguístico na qual o leitor é obrigado a habitar”.

Em relação à criação de textos dramáticos, Leprevost afirma que se utiliza de recursos literários, mas que não se preocupa muito em como o texto ocorre como leitura, já que ele é feito para ser interpretado. “ O texto de teatro só se torna 100% potente no corpo do ator”.

Como há essa diferença na forma em que o texto “ressoa” quando é lido ou falado, muitas adaptações de obras literárias são feitas com algumas mudanças estruturais no texto. Porém também há trabalhos literários que podem vir ao palco na forma exata como se constituem no papel, ainda mais pelo fato de algumas obras serem transcrições de histórias transmitidas oralmente. É o caso de “Ilíada Canto I”, monólogo dirigido por Octavio Camargo e cujo texto é exatamente o primeiro canta da obra de Homero, espetáculo apresentado na mostra Pequenos Repertórios desta edição do Festival de Teatro de Curitiba.

Dramaturgia (s)em papel

Embora dê muita vontade de ter acesso às falas dos atores cada vez que assisto uma peça com um ótimo texto, os três entrevistados dessa matéria preferem que o público tenha conhecimento dos textos teatrais justamente no teatro. “ Textos de teatro quando lidos costumam ser chatos pra caralho”, pensa Eduardo Wotzik.  Um fato curioso da trajetória desse diretor, que já adaptou obras  literárias ao teatro, ocorreu quando, em uma dessas adaptações, um espectador lhe questionou que, se era para assistir algo como estava no livro, que desse um livro para cada um que visse a peça. Wotzik conta que hoje pensa nisso sempre que está adaptando, e que o que define a qualidade de um texto não é essencialmente o texto em si, mas também a adequação com a proposta. “ Fernando Sabino, por exemplo, é um ótimo cronista, mas seus textos não funcionam como teatro”.

Em relação aos próprios trabalhos, Leprevost e França não vêm a maior importância em seus textos pelo que eles expressam verbalmente, pois o essencial do teatro na visão deles são as sensações causadas no público, o que acontece subjetivamente. “Prefiro muito mais que o texto fique ressoando na cabeça do espectador, porque aí o teatro continua”, declara Leprevost. Ele defende as publicações de textos dramatúrgicos como registro, pensando na montagem por outros diretores e no “bem da humanidade”.

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