Para ler com os ouvidos

Nunca ouvi a expressão “Inverno dentro dos tímpanos”, mas já li em algum lugar. Antes mesmo de ler na capa do livro este título (lançado pela Kafka Edições), em 2006 ainda fazia visitas semanais ao site da revista eletrônica Confraria do Vento e acredito vir de lá esta memória incerta. Me preparava para iniciar o curso de Letras e perdia algumas horas do dia em blogs e sites literários. Quando terminei de ler o livro “O Inverno dentro dos tímpanos” e fui procurar mais informações na internet, o nº 11 da revista me refrescou a memória e aliviou a incomoda sensação de “já ouvi isso antes”.

Lá os textos de Luiz Felipe Leprevost ficaram na editoria “poemas”, mas considero que são pequenos contos. Bom, também pouco importa a classificação. Olhando em retrospectiva, as poucas linhas disponíveis na Confraria do Vento servem de introdução ao livro, lançado em 2008, já que este não conta com uma. Para abrir o livro, apenas a citação “Se a gente tem de viver comendo sobras mordiscadas pelos outros, deve pelo menos prestar atenção para que não tenham salivas”, de Pedro Juan Gutiérrez. Interpretei como uma questão de estilo e referências do autor.

Este é o primeiro livro em prosa de Leprevost. Uma reunião de contos que na maioria não passam de 3 páginas. Talvez nisto esteja a razão daquela classificação como “poemas”, pois surpreende a carga de significado que alguns deles sintetizam. Dos dois mais longos, “No Bairro Fantasma A Solidão Anda Em Bandos” e “Soluções Físicas E Químicas Para Se Fazer Um Kafka [III] [A inteligência é um instinto]”, o segundo pode-se dizer que é uma poesia visual, pela organização gráfica. Tive o prazer de ouvi-lo recitado pelo próprio autor em uma das noites do ZOONA Literária. Como na mesma sala outros autores autografavam suas publicações, havia muito barulho quando Leprevost começou a declamação. Com o desenvolvimento do texto as vozes foram diminuindo até cessar e sobrar apenas a voz do autor, seguida de palmas efusivas. Foi de arrepiar. Pela formação de ator e pelas muitas aulas para declamar poesia que ele disse ter tomado de um professor quando ainda estudava no Colégio Estadual do Paraná, penso que na leitura dificilmente alguém poderá ter a mesma clareza de sentimento que percebi na voz do autor.

Voltando ao livro, o título me remete diretamente à Estética do frio, de Vitor Ramil. Não li o livro, mas sei pelos trechos esparsos disponíveis na internet, além de comentários sobre, que apesar de Ramil ter pensado no caso específico do Rio grande do Sul, as considerações sobre um sentimento peculiar das regiões frias do Brasil também se aplicam à produção paranaense, em especial de Curitiba. Também há outro indício no programa da peça “O Butô de Mick Jagger", escrita e dirigida por Leprevost, onde o texto fala sobre o Teatro de Geada, nome da cia de Leprevost, e a preocupação em pensar a obra diante da condição de estarmos na fria região Sul deste país tropical.

Os contos são impregnados de sarcasmo, mas também de uma estranha leveza, em histórias que vezes beiram o absurdo, outras o fatídico. “É isso, tem esse jeito alegre da gente ser triste”. Sutilmente todos os textos recaem sobre a linguagem, como metatextos. Alguns são mais explícitos, mas ainda assim podem passar despercebidos, como “Mini Se Levanta”, “Esquece o Garoto” e “Arfo e Prossigo”. Em contrapartida, todos são explícitos em tratar de um sentimento do qual falei no parágrafo anterior. Não saberia explicar como, mas nos contos é preponderante um sentimento de dias frios, mas que não chegam a ser sombrios. Melhor que esta limitada explicação é ler os pequenos textos na Confraria do Vento. Certamente ali é possível ter uma pequena idéia do que pretendo dizer com “sentimento de dias frios”. Mas já adianto, o livro é muito mais.

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