O corpo do corpo

O corpo do corpo

O primeiro contato que tive com o trabalho da artista Fran Ferreira, no dia da abertura da exposição Orgânico, foi de longe. Era abertura da exposição e só na segunda vez que passei pela instalação, percebi que poderia pisar nas pedras, presas por um tecido, formando um tapete. Minha primeira reação foi não pisar, o que deixou evidente a distância e o medo de transgredir uma barreira de aproximação com outro corpo, reforçado por ser uma obra de arte.

Na parede que o tapete estava encostado, fotos em pequenos quadros de madeira. Pude ver mais perto o corpo nu, retorcido nas pedras, quase amolencendo-as, doando calor. Em outras, uma estranha rede. Enquanto eu olhava as fotos, pisava no cascalho e quase podia sentir o corpo das fotos. A própria sensação de pisar a obra me dava o sentido daquele ritual de entrega entre dois corpos, as pedras e a artista, do qual também pude participar, como terceiro elemento.

Fran foi até uma pedreira desativada, colocou a câmera analógica no tripé, preparou para que disparasse em alguns segundos e, nua, da superfície ao seu mais intimo, entregou-se à realidade. A artista coloca seu corpo na obra e, através de fotografias preto e branco e um tapete de cascalho retirado da pedreira, faz o visitante também ter este momento de entrega, colocar seu corpo na obra. Apela à única verdade possível, o real, o natural.

Na parede, nas costas de quem olha as fotos, uma caixa com larvas em transformação. Talvez, antes do fim da exposição, elas virem besouros. O contato neste caso é apenas com o olhar, mas tão próximo que pode causar repulsa em algumas pessoas. A metamorfose acontecendo. Um segundo contato com a obra também mediado por uma sensação de desconforto na falta de entrega.

Nos falta a entrega, é o que fica em evidência. O estado simples das coisas, ou quando elas são simplesmente pelo contato, corpo a corpo. A caça, o trabalho com a terra, eram atividades também lúdicas e ciêntíficas, geográficas, biológicas, envolviam conhecimentos de diversas áreas, aplicados ao corpo, aos sentidos. O corpo era sujeito.

Na sociedade onde o prazer é um tabu, o contato entre organismos vivos é revestido de ritos. As férias como recompensa do trabalho, o sexo como recompensa do amor entre um casal, ter um momento afetivo a priori para ter que dividir um abraço, como se este já não fosse afetivo por si. Esta resposta prontas ao relacionamentos muitas vezes não são capazes de satisfazer esse desejo de contato.

A instalação de Fran Ferreira dispensa as formalidades de uma exposição, onde não é possível tocar na obra, ou até mesmo se aproximar. Abre um momento onde seu ritual acontece também com a participação de quem olha. Transgride a barreira que afasta o público, num desafio à entrega. Questiona nossos valores prévios e nos pede para preencher essa falta de participação, de entrega ao real. Pede, quase como imposição, ao olhar, tão predominante e distanciado na sociedade contemporânea, uma troca de calor entre corpos, um contato sem subjetividades.

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A exposição Orgânico fica em cartaz até o próximo domingo 16/09, no Paço da da Liberdade. Saiba mais aqui.

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