É noite. Num pântano tenebroso caminha o saci…

Este bem poderia ser o início de um roteiro de filme trash genuinamente brasileiro. Um pântano, um saci. A união desses elementos denota claramente a gambiarra que o gênero trash se propõe de maneira ampla: uma xícara de horror, outra de comédia, pitadas de erotismo e ação, formando um bolo grotesco de baixo orçamento e fácil apreensão do público. O trash, apesar de malvisto e pouco respeitado (e essa sempre foi a ideia), é parte vital da cultura de massas tanto devido à quantidade de pessoas que cativa, quanto à variada produção que engloba filmes, quadrinhos, livros, etc.

A produção trash varia muito bem todos os ingredientes citados acima, menos o erotismo. O horror, por ser sempre a base do enredo, aparece das mais diversas formas: invasões de mortos-vivos, catástrofes nucleares, loucura humana, medicina grotesca. De maneira semelhante também acontece com a ação ou a violência, que vai desde hecatombes até o esquartejamento frio à lâmina de bisturi. A comédia, traço fundamental, também não foge à regra, se construindo ora a partir de elementos linguísticos dos diálogos ora pela explicitação do método (tosco) cinematográfico.

O erotismo, porém, é monotônico. Uma mulher gostosa sem roupa transando, uma mulher gostosa sem roupa fugindo, uma mulher gostosa sem roupa apanhando, uma mulher gostosa sem roupa matando, uma mulher gostosa sem roupa. Pode parecer estranho que esse elemento seja tão repetitivo no trash, enquanto assistimos a uma variabilidade considerável dos outros aspectos. Mas, por mais que essa pareça ser uma característica intrínseca desse tipo de produção, é fácil notar que o erotismo em qualquer filme mainstream (e na maior parte dos filmes cult) se reduz sempre ao mesmo, com pequenas variações quanto a quantidade de roupa da atriz feminina. O que nos leva à conclusão de que não se trata de uma característica específica do trash, mas simplesmente de um traço da sociedade patriarcal que equivale sexo a mulher.

Apesar disso, o que havíamos observado, até então, no trabalho da Vigor Mortis – companhia de teatro trash curitibana, da qual pudemos acompanhar as peças “Nervo Craniano Zero” e “The Forsaken Laboratory”, o filme “Morgue Story” e o HQ “Vigor Mortis”- era bem diferente. Em todos os trabalhos que assistimos, o erotismo foi tratado de maneira criativa, de forma a não reduzir a mulher a objeto sexual, mas fazer troça com isso.

Infelizmente, não foi o que aconteceu na última peça de Paulo Biscaia Filho, diretor da companhia: À meia noite levarei o seu cadáver. Baseada na obra de José Mojica Marins, a Vigor Mortis montou uma homenagem problemática e simplista ao ídolo do cinema de horror brasileiro.

Apesar das referências, o roteiro da peça conseguiu deixar de lado o caráter declaradamente eugenista do personagem a que visava, Zé do Caixão, mas manteve a imagem de mulher como frágil, prostituta, objeto sexual, carne de açougue e animal de sacrifício. Essa característica não apareceu simplesmente porque o protagonista era machista – o que, em princípio, não teria problema algum – mas transpareceu através das escolhas narrativas e cênicas do roteirista e diretor. Um exemplo é a própria construção do caráter humorístico, que usou preceitos sexistas como base, seja nos monólogos do protagonista, seja na ambientação das cenas de violência.

Ao invés de olhar criticamente para a obra de Mojica e lidar com seus problemas de maneira criativa, catastroficamente, a Vigor Mortis encenou um clichê dos mais agressivos, que não só carece de brilho, como reforça a mentalidade sexista de uma plateia que aplaude mecanicamente.

Texto de Gil Caruso & Luísa Oliveira

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