O céu é o espelho do asfalto

Atravessando a porta do Teatro José Maria Santos o gelo seco faz lembrar a neblina tão comum dos dias de inverno curitibano. O palco escuro ganha a presença dos músicos que começam a tocar na penumbra. O som é intimista, assim como o cenário que vai aparecendo vagarosamente de acordo com a luz, que faz visível um catre, garrafas vazias de vinho e cerveja, discos numa caixa, entulhos, malas e uma mesa com cadeira.

O cenário descrito acima é do show “Carpet de Asfalto”, do músico e compositor curitibano Thiago Chaves, que aconteceu em caráter único na última quinta-feira do mês de setembro. Para lá me dirigi considerando uma referência adquirida no release que divulgou o show: a estética do frio, de Vitor Ramil. Ele diz o seguinte em uma de suas canções:

“Milonga é feita solta no tempo / Jamais milonga solta no espaço”

O cenário funcionou simbolicamente, indícios da inspiração. Se solidão não tem escapatória, isso acontece em qualquer tempo e em qualquer parte. Mas o que senti através das músicas do show é algo comum a quem tem quase sempre em sua janela o cinza que isola como chumbo. O carpet de asfalto é em Curitiba, e ele é frio.

Em sua maioria as composições carregam a melancolia, vezes como um fardo, outras com beleza. O sol que derrete o gelo atravessa o nublado, mas não o dissipa. A tristeza é inerente e a poesia nas letras funciona com as melodias, se utilizando de rimas ou não, aproveitando metáforas tanto regionais como inusuais – coração uva passa.

A banda – Vinicius Nisi (teclado), Luís Bourscheidt (bateria), Rodrigo Lemos (guitarra), Fábio Abu (guitarra) e Diego Perin (baixo) – colaborou para o clima invernal, em sintonia com a proposta. Os arranjos apresentaram regularidade estética, os timbres até demais – a monotonia que atravessa aquela janela. Em alguns momentos os instrumentos se sobrepunham perante a voz, palavras interceptadas por acordes, prejudicando a audição dos versos.

Um foco de luz iluminou as ideias e mais uma referência apareceu: Luiz Felipe Leprevost – de fato um dos parceiros de Thiago. Holofotes laterais iluminam apenas a sua cabeça, como na peça “O Butô de Mick Jagger” – uma realização do Teatro de Geada.

No fim, o frio predominou no Carpet de Asfalto – que não foi longo, pouco mais de quarenta minutos de show. Mas o tempo não era o preponderante. O clima sim, visto que a milonga está arraigada, raízes axiais que penetram o âmago curitibano.

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