O canto que nos criou

O canto que nos criou

Um tanto constrangedor ainda não ter lido a Ilíada. Constrangedor porque implica em ignorar a potência de um gerador que alimenta a humanidade muito antes de Cristo. Nós estamos lá, nos arquétipos que perduram até hoje no território dos mortais. E se há um motivo para essa reflexão, ele se encontra na encenação do Canto 1 da Ilíada, que esteve em cartaz até o último domingo no Miniauditório do Teatro Guaíra.

Lá recebi oralmente a tradução de Odorico Mendes – o primeiro a verter para o português a obra de Homero – pela interpretação de Claudete Pereira Jorge, que entra no palco nu vestida de preto, centrada em curto perímetro que atendia as marcações de luz. Cada personagem é iluminado de maneira característica - notável a oposição criada entre Aquiles e Agamêmnon. A luz serve como apoio aos personagens, mesmo sem ela seria fácil identificar quem é quem apenas pela performance da atriz.

Impressionante a vida do texto em Claudete, o ritmo e a intensidade propostos para interpretar a tensão épica entre Agamêmnon e Aquiles, toda permeada pelas ardilosas relações entre mortais e celestes. Não é surpreendente saber que o trabalho – e aqui é válido lembrar do diretor Octavio Camargo - para este Canto foi iniciado em 2004, cinco anos após o início das atividades da Companhia Iliadahomero de Teatro, cujo objetivo neste projeto é encenar todos os 24 Cantos, cada um na voz de um ator convidado.

Após monólogo arrebatador, Claudete deixa o palco cheio de palmas de uma grata plateia. De minha parte, as palmas foram pela fruição do texto, que apesar do alto repertório exigido, fez daquele momento um mergulho - como o da deusa Tétis após conluio com Zeus.

Experimentar o mais antigo poema da tradição ocidental na forma atribuída à sua concepção, pela oralidade, foi uma experiência que serve para reorientar os conceitos, lembrar como um texto pode ser música, além de despertar o interesse pelos clássicos indispensáveis para a compreensão de nós mesmos.

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