O amor e a culpa

O amor e a culpa

Pé ante pé uma onça-pintada fareja à beira do igarapé. Cabeça levantada ela vê o piscar dos cilhos da mata, enxerga no gargalo do rio o ponto do ataque. O predador avança felinamente, movimentos frios e calculados pelo instinto.

Na cabeça o pensamento é matemático, não há dúvidas sobre as evidências. Antes, o cheiro de capivara inunda o nariz, e os pelos submersos certamente se arrepiam. O instinto é saudado pelo destino quando surgem no campo de visão não uma, mas duas capivaras.

Como quem volta do mercado, mãe e filha atravessam a rua, o sinal está amarelo. Se não é a mãe a filha mete a fuça e o carro pega. Ela, madura e experiente, vai na frente: pula na água.

O predador finge que não vê, não é ela sua presa. Grande demais, velha demais, fácil demais. Todos têm suas preferidas - comidas antes, é claro. Seu olhar é o de vitrine, o desejo daquele que olha mas espera o melhor momento para pegar. A presa é bobinha, e por quase ter beijado a morte antes da travessia, agora fica com medo. Não da onça, mas da rua.

A mãe é rato do tamanho de porco com focinho de cachorro com cara de cavalo, por isso o cheiro do flanco não engana: Jaguaretê! O instinto aproa em direção ao inimigo, que de antemão não se preocupa em ter dentes ou garras crivadas em seu majestoso manto. Por essa fraqueza aplicada por Deus às capivaras, sua tentativa de salvar a filha do bote não funciona como na travessia da avenida.

Cada movimento da pequena capivara é visto no corpo da onça, dança milimétrica antes do bote cego, surdo e mudo. 

É da casamata o olho de quem vê, o ouvido que escuta o imenso silêncio provocado antes do bote. Sua compreensão não mede o valor da vida de quem vai matar, de quem vai morrer, de quem se arrisca por duas vidas: Sua vida é filmar o flagrante selvagem. Não há sentimento de culpa em nenhum dos pontos de vista envolvidos.

A criança está sentada no sofá. Ela espera a mãe trazer seu papá quentinho, e imagina na cena o cachorro Bob correndo atrás do gato Pletu. A mamãe chega e acompanha o momento decisivo na vida selvagem, assoprando a comidinha do filho que está aprendendo a falar. Ela fica aliviada quando a onça, após dar o bote, sai da água com os dentes limpos. Ela - que antes tinha condenado a mãe capivara por não ter sido corajosa ao ponto de dar sua vida em troco da vida da filha - agora pensa em como foi esperta aquela criatura, que no fim de tudo salvou não só a vida da filha, mas a sua também.

A onça foi pra casa, jogou a jaqueta no cabide e acendeu um cigarro. A nicotina a faz esquecer de sua culpa no choro de fome da ninhada, praguejando, entre um trago e outro, contra o fato natural do onço a abandonar antes do parto. A capivara está aliviada pela manutenção da vida, mas a culpa a corrói por ter a mesma impressão que a mamãe do papá quentinho teve a seu respeito.

A pequena capivara caminha chorosa ao lado da mãe, que consola e repreende a filha: É preciso prestar atenção nessa vida!

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