No realejo um som grotesco

No realejo um som grotesco

O cartaz um espelho. Nem o riso e nem a lágrima, mas o constante fluxo no eixo vida e morte. A Cia. dos Palhaços e sua ante-sala de cores quentes podem ter sido um acaso, mas era sabido seu efeito de contraste: lá dentro um ambiente negro menciona um circo, apesar da aparência do interior de uma casa. Na parede emoldurados cada um dos quatro atores do elenco, retratos inacabados para sempre, visto que as imagens estão em movimento.

Nada está estático, o que transborda o palco: a platéia também encontra sua corda bamba. Substituída por palmas artificiais, também me descubro artifício, joguete emocional dentro da cena. O riso que brota na face é logo censurado quando o raciocínio alcança as emoções e percebe a puta sacanagem. A vingança não demora e o tomate é oferecido ao público. Você o arremessaria na bunda-alvo do personagem/ator?

Minha primeira impressão é o mundo, o espetáculo humano diário, dentro de cada casa, de cada um que estampa um porta-retrato na casa da sua família. Pensando nisso descubro a segunda, que é justamente a relação vivida por quem ocupa os retratos pendurados na parede-cenário. Pesquisando, entrevistando e pensando, sim, é a representação o primeiro plano da peça.

Tudo é um jogo que mostra o real e o ficcional através de seus interstícios. É ali que uma mãe de família pode não ser mãe mesmo sendo mãe, onde um homem morre de mentirinha mesmo quando assassinado e que um boneco ganha a alma humana. Alguém já disse rindo: essa brincadeira vai terminar em choro.

A crueldade é indissociável da natureza, no sentido do implacável. E a humanidade aí, inventando a eternidade, enviando jogadores de futebol para o sacrifício e artistas para o sucesso póstumo. Lágrimas de crocodilo!?

Em um domingo, que começou ensolarado e terminou chuvoso, alguém da platéia aceitou o tomate que tinha endereço. Antes mesmo da intenção se tornar ação: música para seguir o baile. O efeito de cena salvaguardou uma bunda e a crueldade do jogo, paralisou meu julgamento e mostrou um posicionamento humano da companhia.

Mais importante que os pólos observados na montagem da CiaSenhas para Circo Negro de Daniel Veronese, início e fim / vida e morte / ficção e realidade, está a relação entre essas contrariedades, a ambivalência dessa polarização. A síntese não é o alvo. 

Outros rabiscos do Romã

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A partir deste texto a seção de opiniões do site Curitiba Cultura passa a ser intitulada 3x4. Serão três textos semanais ilustrados por Romã (Bruno L. Mocelin e três cabeças a escrever para o espaço: Diego Torres, Diogo Woiczack e Marcelo Leite. Não há regras pré-estabelecidas para a expressão de cada um dos colaboradores, apenas a busca de aperfeiçoamento da sensibilidade e da singularidade. 

Não sabe onde ir hoje?

Rua Treze de Maio, 629 Largo da Ordem
Curitiba , PR

Teatro Lala Schneider

O Teatro Lala Schneider  é conhecido por seus espetáculos sempre lotados e também pelo curso de artes cênicas, que já revelou grandes nomes da cena nacional. O local é de iniciativa privada e foi fundado em 1994 pelo...
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