Estados físicos do amor

Estados físicos do amor

Em meio ao público, que aguarda a abertura das portas do teatro, um casal molhado pela chuva atravessa. É nesta travessia que começa Longe: Sobre o amor, sobre distâncias, peça em cartaz no Teatro Novelas Curitibanas que marca os 10 anos do Grupo Obragem.

Antes, no momento da retirada do ingresso, pode-se ler no programa:

“Muitas vezes são os extremos que mais nos ensinam sobre os estados intermediários: gelo e vapor nos revelam mais sobre a natureza da água do que a própria água.” - Walter Murch

Lá dentro a trilha sonora é costurada pelo som da chuva e a certeza da metáfora entre água e amor se faz evidente no primeiro vídeo projetado, a imagem de um peixe dentro d'água. Essa imagem me faz pensar que aquela situação é a ideal para um peixe, disparando em meu entendimento a relação da condição essêncial da água para a vida, de que o planeta é composto em 70% de água, assim como nossos corpos. Sem o amor seria possível vida?

Além, mas voltando: A citação acima faz pensar que são as diferentes formas que informam. Três atores, três narrativas, três estados físicos da água.  

Sólido: O gelo, congelar para conservar. Quando o personagem de Eduardo Giacomini dirige o foco em busca de uma ausência, penso na morte. Quando busca objetos para ignição de lembranças, é a morte. Na pena o joguete com o destino, o pairar, enfim, paralisado pela gravidade. É o amor congelado pela morte, o desfecho que congela uma certeza depois do fim.   

Gasoso: O amor que se dissipa. A Personagem-Medusa (Olga Nenevê) que não vira pedra no reflexo do jovem Perseu (Fernando de Proença), mas que congela - foco quadrado de luz nele - o amor dele por ela. Nele a incapacidade de manter os pés dela longe do chão. Ela evapora em lágrimas à espera de outros choques, ele derrete seu amor na chuva ou jogando água em sua cabeça. O amor não mais correspondido, tristes em sentidos diferentes.
 
Líquido: O amor possível pelo estado líquido que invade e envolve, sem parar de fluir, mesmo com o secador cotidiano ligado. É a fonte que nunca seca, o clichê do final feliz. A troca de fluídos que marca dois corpos, duas vidas que fluem no mesmo tempo e sentido.

Apesar da interpretação que sugere um estado físico para cada uma das três narrativas, é possível criar micro ciclos do amor dentro de cada cena. É mesmo possível criar um só enredo para o tríptico - principalmente por Olga Nenevê e Eduardo Giacomini atuarem como casal em duas das três cenas.

Das três peças que assisti da Obragem, Longe: Sobre o Amor, Sobre Distâncias é a primeira em que o cenário reproduz ambientes (sala, cozinha, quarto), e a primeira também em que o amor é o tema - um indício, já que a peça faz parte da celebração dos 10 anos do Grupo Obragem. O texto de Olga Nenevê parece continuar no caminho de combinar as palavras em busca do movimento, da emoção efêmera da cena. Vale ressaltar também as projeções e fotos (programa) realizadas por Elenize Dezgeniski, fundamentais para o paralelo aqui descrito.

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