O buraco é a menor distância entre um parágrafo e outro

O buraco é a menor distância entre um parágrafo e outro

As portas do ônibus Inter II se abrem e eu procuro olhar para o outro lado do terminal, para ver se meu ônibus já está lá. Ele está e eu preciso correr. Desvio de um, costuro outro (até parece futebol) e desço as escadas pisando de lado para não me espatifar no chão. A correria não faz parte apenas do meu cotidiano, outras pessoas vêm e vão da mesma forma que eu, às vezes devagar, às vezes até mais rápido... Haja fôlego, pois já são 22:46! Corro pelo túnel e subo os degraus. Como sempre a esperança é a última que morre e vejo que meu ônibus continua lá, um alívio momentâneo, mas que rapidamente é esquecido pelo calor da correria que continua. Corro em direção a ele, mas não posso esquecer que outros veículos estão indo e vindo, como as pessoas, e se eu não me cuidar posso ser atropelado, tanto pelo automóvel quanto pelo ser humano. Chego até ele e respiro aliviado.

O ônibus ainda não está tão lotado, entro e consigo me acomodar em um espaço bacana. É claro que não consigo sentar, quem consegue um assento vazio no Capão raso/Caiua é rei, pelo menos naquele horário. Já instalado, recomponho meu fôlego e observo as pessoas que ali, naquele momento, me parecem todas iguais, inclusive eu, que trabalhou/estudou e só quer saber de chegar em casa e descansar para o outro dia. Meros mortais, não?

Acomodado, decido adiantar algumas leituras. Abro a bolsa e saco meu livro, enquanto isso mais pessoas entram no coletivo. O motorista espera o horário para partir e as pessoas esperam o horário para voltar. A relação que tenho com o livro dentro de um ônibus não é das melhores, ele sente que as circunstâncias não são boas e também vive na própria pele - ou nas folhas - a força da gravidade exercida no ônibus pelos buracos da rua. Complicado por que não é apenas o meu livro que sofre, vejo outras pessoas tentando controlar seu objeto de leitura como se tivessem com o volante nas mãos. Nobre fonte de informação, quer apenas ser aberto, folheado, lido e fechado, sem mais. As diferenças sociais se estendem a esfera da leitura dentro do ônibus, vê se pode.

Começo minha leitura, tento me concentrar para lembrar os acontecimentos anteriores da história e finalmente a voz da garota anuncia que as portas estão fechando e o ônibus sai em direção aos lares vazios. Agora é simples, ler o livro até chegar meu ponto e descer para descansar. Não, minha leitura fica mais difícil. Além do pequeno espaço territorial, tenho que lidar com os pulos e solavancos que nosso "amigo" Capão Raso/Caiua é submetido. A persistência é maior, um novo foco, firmo a visão, novo início de parágrafo e algumas paradas para os desembarques, que também não são tarefa fácil. Adentramos uma rua longa com uma descida e uma reta ao final. É ali que até o menor parafuso daquele veículo tem seu trabalho redobrado, não preciso nem citar os amortecedores que pronunciam palavras e, às vezes, gritam na luta contra o asfalto irregular. Os buracos me vencem, não dá. Sou obrigado a parar a leitura, naquela situação nem mesmo  um Jack ou um Dalton conseguem que eu persista e tente ler. Aqueles pulos acabam se transformando em um exercício corporal. Academia, pra que?

Fecho meu livro e o guardo dento da bolsa, fico triste e um pouco puto, principalmente com órgãos gerenciais da nossa cidade, mas sei que de nada adianta e me consolo. As trepidações continuam e depois de alguns minutos todos já estão acostumados, a não ser por aqueles pulos maiores e mais bruscos, em que o estômago sobe pela boca e volta ao seu lugar normal e que automaticamente implica em um grito lá de trás: _ Tá carregando porco é motorista?

Sinto que ler o livro não é a coisa mais importante naquele momento, até porque definitivamente não tenho condições para isso. Mas dentro de toda essa odisséia, percebo que muitos olhares me contam uma história. A dona de casa que pensa nos problemas da família, o adolescente que mesmo tendo se despedido da sua namoradnha ainda parece estar nas nuvens. Já o estudante universitário pensa em como ficar rico com sua profissão para nunca mais precisar passar por situações de semelhante desconforto e solavancos. Tem até o malandro que só quer se acomodar atrás de uma moçoila e curtir o vai e vem. Meu ponto chegou, é hora de descer.

A porta do ônibus se fecha e ele aos poucos vai sumindo em direção ao seu caminho. Paro, penso e reflito... será que os buracos ao invés de me restringirem de uma leitura não me possibilitaram ter um novo olhar sobre coisas banais e com isso construir um livro imaginário na minha cabeça? Talvez... mas sei que se esse livro tivesse um título, com certeza o nome seria: linha 658 CAPÃO RASO/CAIUÁ.

Outros rabiscos do Romã

 

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