A Queda, por Cilene Tanaka

Mini-guaira. Sobre o palco há outro palco quadrado pequeno. Microfone sobre o meta-palco e uma luz projetando um retângulo branco ao fundo. Entra um senhor vestindo paletó branco de linho, gravata branca divertida com losangos pretos, calça verde musgo e sapatos pretos bem polidos. Os losangos contradizem o resto com sua alegria, tornando-se, eles também, tristes no decorrer da peça. E é na contradição que a riqueza deste espetáculo surge. Não é teatro experimental. Ao menos não como gênero porque todo teatro acaba experimentando. É teatro como vida, como experiência de troca entre seres humanos. Como comunicação transcendental entre seres que têm ao menos algo em comum: neste caso, a morte. E é partindo da morte que este texto passa a pensar a vida. E pensando a vida conclui que Deus já não preenche o buraco da existência. A personagem viu um suicídio. Mas se me ocorrer que ela é um defunto-autor, desculpe-me: os verbos no passado podem me deixar na dúvida: “Eu era um advogado. Eu já fui muito rico”. Ela, ele, ela. Personagem, suicida, suicida. Já não sei se a personagem está viva, se a personagem é a suicida ou se a personagem se suicidou. E isso não importa porque o que a personagem é é humana. Ele não olha a platéia ao entrar. Brinca paciente e literalmente com o nome do espetáculo tendo por fundo uma música de circo. E logo começa a falar, parando somente uma hora e vinte depois. Há uma luz insistente no meio da platéia que acho ter sido esquecida. Mas quando me lembro que Zanatta vem dum teatro de tradição em que a platéia é tão importante quanto o ator, percebo que deve ser de propósito: nem no teatro podemos nos livrar da culpa – enfrentá-la-emos com luz acesa. Ele começa falando de si: fala de seus vícios e virtudes, confessa suas culpas. Ele é Mauro Zanatta, Albert Camus e João Batista Clemente, a seu dispor. E enquanto fala, olha para a platéia atento aos pontos em que partilham sua humanidade. Percebe a infinita afinidade das culpas e, calculadamente, diz: “Eu sou o último”. Em seguida: “Nós somos os últimos”. O microfone era usado a cada vez que ele queria nos sussurar, como o diabo, alguma verdade aos ouvidos. O vermelho aparecia quando a ponte onde ocorreu o suicídio era referenciada: uma memória recalcada? Quando se dirige aos inteligentes é mais difícil porque não pode só aplicar o método, tem de explicá-lo pormenorizadamente. Mas ao fim sempre aparece o que se é, porque a aparência é a manifestação adequada da essência. E Mauro aparece a cada palavra. E nós aparecemos ao final. É um espetáculo horrível. E como poderia ser outra coisa o espetáculo de minha solidão? 

*A peça A Queda está em cartaz no Teatro Guaíra até o dia 24/06. Saiba mais aqui.

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